#fail: DISSECANDO A PIZZA DO SUBWAY

Postado em 08/09/2020 por Raquel Logato
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Nunca gostei de abordar temas quentes na mídia no calor de sua popularidade. Gosto de esperar o assunto decantar para analisar tranquilamente sob a minha ótica, sem a influência de terceiros. A pior coisa que existe para o ser humano é enxergar o mundo sob as lentes alheias e somente replicar o que os outros dizem sem fazer uma reflexão cuidadosa e apurada.

Há algumas semanas a pizza do Subway virou comentário nas redes sociais brasileiras. Os internautas ficaram chocados com essas imagens:

Imagens fortes e chocantes para amantes de alimentos. Os olhos doem mais do que músculos depois do primeiro dia de academia.

Esse episódio me fez refletir muito sobre qualidade, inovação, imediatismo, respeito ao consumidor final e marketing. Cheguei a algumas considerações importantes e gostaria de tratar com vocês de forma minuciosa, quase um estudo de caso.

Abordarei o tema com todo respeito e carinho que a Subway merece, pois é uma empresa e está sujeita falhas. Aqui não é espaço para achincalhamentos e desrespeito aos profissionais que compõem a empresa e tentam dar o seu melhor com os recursos e liberdade que lhes são conferidos. Eu sou uma profissional, sou humana e me sentiria muito mal em ver alguém me rebaixando ou humilhando por um erro profissional. 

Logo escreverei com o mesmo carinho e respeito que escreveria para meu avô.  Se bem que para ele eu teria que verbalizar ao invés de escrever, pois ele morreu esse mês aos 79 anos e era analfabeto. Só sabia muito mal assinar o nome e reconhecer números; ele deu o sangue para eu pudesse chegar na faculdade e era só felicidade por eu ser mestranda na Fiocruz. Esse texto será em homenagem a ele 😊.

Se você já leu meus escritos anteriores no Sra. Inovadeira deve ter notado que gosto de separar os assuntos por tópicos. Assim ninguém se perde, fica tudo categorizado e os pensamentos não viram uma sopinha de letrinhas. Vamos analisar 08 pontos que destaquei com precisão cirúrgica e dissecá-los.

Eu sou APAIXONADA POR FOOD SERVICE, CONTROLE DE QUALIDADE E HIGIENE DE ALIMENTOS. Mas tão, tão, tão apaixonada por esse setor que durante a graduação pensei até em fazer uma tatuagem na nuca com as palavras “eu amo produção”. Ainda bem que nunca tive coragem de colocar a idéia em prática e deixei a paixão correr nas minhas veias ao invés de ficar marcada na minha pele.

Sem mais delongas, vamos ao que interessa!

A mente do consumidor pós moderno

O consumidor do século XXI é sobretudo exigente. Está empoderado de informação, preocupado com questões sociais e ambientais, preocupado com a forma física, conectado 24 horas na internet e mais atento ao que consome. Ao contrário das gerações passadas a minha geração e as posteriores não engolem mais qualquer coisa que é oferecida pela indústria de alimentos e pelos restaurantes. Os alimentos precisam ter certificado de procedência, apelo à saudabilidade, serem esteticamente agradáveis, ter embalagens clean, rótulos corretos, serem eco friendly e fornecer benefícios à saúde e ao planeta. As embalagens precisam ser menos poluentes possível e deixar pouco ou nenhum resíduo tóxico no meio ambiente.

Se esse caso da pizza tivesse ocorrido há uns 15 anos atrás com 100% de certeza a abrangência do assunto seria no máximo local, feita boca a boca e essas imagens se tornariam uma lenda urbana sem pé nem cabeça. Mas na era da internet qualquer vacilo é motivo de assunto viral, cancelamentos, memes e piadinhas por semanas. As imagens funcionam como imã ou espantalho para o consumidor, lembre-se disso.

Meu corpo, minhas regras

Marcel Mauss disse em sua obra As Técnicas do Corpo (1934), que

o corpo é o primeiro e mais natural instrumento do homem

É o meio pelo qual nos comunicamos com o mundo, é nossa máquina de guerra inata, o cerne de nossa existência. Entre as variadas técnicas que desenvolvemos por influência familiar, cultural, social, ambiental e por outros fatores temos a técnica do comer. Os horários, postura ao sentar, forma de pegar no talher, ingestão ou não de líquidos durante as refeições,  uso ou não de talheres (há povos que comem com as mãos), local para sentar, comer em pé ou andando… há tantas variáveis que podia escrever um texto só sobre isso. 

Quer saber mais sobre o assunto? Se inscreve no Happy Food Tech Tacta e assiste a minha palestra.  Eu vou falar sobre as técnicas do corpo, musas fitness do Instagram e hábitos alimentares e de compra de mulheres brasileiras que usam essa mídia social.  Tema interessante né, minha filha? Então corre lá e se inscreve!

Vou te deixar com a curiosidade aguçada sobre esse tópico. Nos encontramos dia 30 de setembro para debater com mais profundidade sobre isso. Prometo explicar tudo o que sei!

Ingredientes

A qualidade do insumo que você usa no processo influencia na característica do produto final. Como você quer utilizar ingredientes de quinta categoria, vagabundos e querer um produto gostoso, bonito e palatável? Não tem como! Você já comeu brigadeiro feito com o leite condensado da marca mais famosa do Brasil e com chocolate em pó de alta qualidade? O sabor é totalmente diferente de um brigadeiro feito com leite condensado de péssima qualidade e chocolate em pó cheio de grumos insolúveis e com sabor de sebo. Tudo isso ocorre pela combinação de ingredientes ruins. Não tem como fazer uma mistura de coisas ruins e dar em algo minimamente aceitável.

Indústrias de ingredientes e matérias primas alimentares, ouçam o clamor dessa humilde nutricionista! Façam produtos saborosos, usando a melhor tecnologia que podem investir e tenham um time de P&D e Qualidade multi/inter/transdisciplinar com profissionais da nutrição, engenharia de alimentos, química, gastronomia, marketing e outras profissões que contribuam para a elaboração de produtos memoráveis e nos ajude a desenvolver um hit alimentar. Lembram dessa célebre frase do filme Tropa de Elite?

Vocês querem rir? Façam a gente rir e arrancar sorrisos do consumidor através de qualidade, preços justos, segurança de alimentos, rastreabilidade da cadeia produtiva, respeito, diálogo, preocupação com o bem estar, com o bolso do consumidor e com o trabalho do profissional que está confiando em sua marca para elaborar um produto que se sair errado devido a falha nos ingredientes pode custar a carreira e a reputação dele.

Sou perfeccionista ao extremo (isso nem sempre é bom, acredite) e sob essa ótica digo que não devemos aceitar nada a não ser o melhor. Se queremos construir uma imagem positiva perante o consumidor, ser referência no mercado e agregar valor ao nosso produto devemos sempre usar a melhor matéria prima que nosso orçamento pode comprar.

Nessa pizza é nítida a presença de ingredientes de baixa qualidade. Se a qualidade deles era alta, a má manipulação estragou. Não podemos colocar pérolas em focinho de porcos; e ingredientes de boa qualidade são pérolas preciosas. Devem ser bem manipulados, bem tratados, bem armazenados, dosados na quantidade certa e devem todos juntos compor uma bela harmonia visual e alimentar.

O Food Porn

A pizza é um dos alimentos que tem o apelo pornográfico. Ela precisa ser atraente mesmo que tenha o apelo da saudabilidade. Não leu o texto sobre food porn? Clica nesse link para ler, mas primeiro termina esse aqui porque o papo está bom!

Essa pizza está parecendo um pornô alimentar amador feito com câmera de baixa resolução num quarto escuro e sombrio, onde os atores estavam sem entrosamento, cansados, sem direção, roteiro e figurino. Uma desastrosa pornochanchada sem pé nem cabeça, mas que faz todos rirem com o humor da cena ao invés de sentirem-se excitados.

Eu posso falar isso aqui né, gente? Somos todos adultos. 😊

Treinamento de funcionários

Isso é tão importante quanto respirar. Um funcionário bem treinado vale ouro! Um erro grotesco das empresas brasileiras em geral, não apenas no setor da alimentação, é não investir em treinamento dos funcionários. Espera-se que a pessoa chegue pronta, já sabendo tudo, alinhada ao feeling da empresa e do setor, tendo 20 anos de idade e 30 de experiência.

Devido ao fato de o setor de alimentação ter um turn over muito alto é até compreensível (mas não justificável) que muitos empresários não tenham a visão do desenvolvimento de habilidades e competências. Já vi uma equipe toda mudar em menos de um ano por abandono de emprego, troca de empresa, demissão, afastamento por doença laboral ou outros motivos. Mas todos eles tinham um ponto em comum: sentimento de não valorização profissional e pessoal devido à falta de treinamento, oportunidades de crescimento ou aprender uma nova função.

Não nascemos prontos, todos precisamos de um treinamento desde a tenra idade. Seja para aprender a engatinhar, a falar, a andar ou a pegar em talheres. Adultos também precisam passar pela fase de aprendizado. Um grande erro é achar que os funcionários do nível operacional, do chão de fábrica e da linha de frente da cozinha só precisam de Equipamentos de Proteção Individual e aprender as normas da empresa. Pouco tempo é investido em desenvolvimento de habilidades, acompanhamento das funções, contratação de profissionais de nível técnico e superior para ministrar os treinamentos, cursos in company, estímulo à realização de cursos externos através redução da carga horária de trabalho, compensação, ajuda de custo para cursos e estímulo ao aprendizado e criatividade.

Enquanto não houver o despertar para esse tipo de coisas as empresas, funcionários, sociedade, consumidor e todos mais vão sair perdendo e as salas de aula dos cursos ficarão assim:

Se bem que as salas de aula já estão assim devido à pandemia, mas o mundo virtual está pegando fogo! Tem aula online para todos os gostos e necessidades! (inclusive na Tacta Food School)

Um funcionário bem treinado, tratado com respeito e valorizado vira um grande amigo e aliado da empresa e da liderança. Sabe aquela história de vestir a camisa da empresa? É isso que vai acontecer, mas não de uma forma medrosa, puxa saco e por obrigação para pagar contas.  Será por prazer, sentimento de pertencimento, valorização, respeito e vontade de crescer. A pior coisa é ter o seu setor operacional distante, despreparado, mal integrado e em constante disputa.

É o caso do Subway? Talvez não seja e nem estou falando que é. Toda essa conversa direta e objetiva foi para mostrar que manipular alimentos e cozinhar é um ato de amor e precisa de técnica e preparo se quisermos que as coisas saiam bem feitas.

Segurança dos alimentos

Isso eu nem vou debater muito para não ser redundante, já está implícito ao longo do texto. E como não houve queixas de saúde dos consumidores, presença de perigos físicos, má acondicionamento e conservação do produto, vamos pular essa parte.

Dar um passo maior do que a perna

Diversificar o mix de produtos não é uma tarefa fácil. Exige um bom ciclo PDCA, reuniões, brainstorming, testes, testes, testes, testes, escuta, análise sensorial, desenvolvimento de rótulos, elaboração de ficha técnica, seleção de fornecedores, mapeamento do processo produtivo, identificação de falhas, gargalos, público alvo… Eu com certeza esqueci de alguma coisa, se você lembrar me diz nos comentários!

Nós, brasileiros, somos muito apressadinhos, não seguimos as etapas correta e já queremos lançar o produto na praça de qualquer jeito e consertar eventuais erros depois. Isso é um desrespeito e anti profissionalismo grotesco.

PRESTE ATENÇÃO E PARE DE SER CAGÃO: se você faz parte de uma equipe de P&D e qualidade e está notando que vai dar merda, sai porque vai dar e você não conseguirá impedir se a chefia for engessada, ruim de escutar e você não souber se posicionar. Aprenda a dizer sim e não na hora certa, não faça qualquer coisa por dinheiro e posição profissional e tenha uma postura coerente com teu currículo, esforço e trajetória de vida!

Concorrência

Ahhhh gente, vocês viram o que a Domino’s fez?

Vocês têm noção da afronta nervosa e audaciosa que a equipe de marketing aprontou. Achei sensacional, aplaudi de pé essa jantada. Foi uma sacada genial! Vi muitas pessoas nas redes sociais que não gostaram, acharam desrespeitoso, feio e antiético.

Eu vi uma opinião muito interessante dizendo que se a Domino’s quisesse ensinar a fazer pizza e ajudar a Subway de verdade teria procurado os níveis gerenciais e diretoria, não ido até as lojas entregar pizza e carta aos funcionários operacionais que dependem de ordens superiores e não podem mudar um til na ficha técnica, composição, ingredientes e metodologia de execução da receita definida pela rede. Até que eu concordei com esse ponto de vista de que foi lacre pelo lacre, sem intenção de colaborar, apenas de se engrandecer e reafirmar seu espaço no mercado de pizzas.

Foi de uma genialidade tremenda, parabéns aos envolvidos!

Como já diria o poeta Chorão:

Nosso erro pode ser a felicidade e a chance de crescimento da concorrência. O pastor Osíris Marques fala em absolutamente todos os cultos a frase “não existe almoço grátis” para se referir ao fato de que temos que estar espertos quanto a ofertas tentadoras, bondade exacerbada e oferecimento de vantagens surreais.  Sempre haverá um preço a ser pago depois de uma esmola milionária. Nesse caso o almoço grátis oferecido pelo Domino’s rendeu comentários nas redes sociais, memes, vídeos, discussões e reafirmação de posicionamento e marca. Foi como se estivessem dizendo para o Subway:

Se não sabe do que estou falando assista o vídeo abaixo caso ainda não tenha assistido ainda:

Conclusão

Concluo que não temos conclusão. A conclusão quem vai me dar é você, leitor ou leitora. O objetivo desse texto não é encerrar uma discussão e sentenciar-me como a sabida do assunto. Eu quero ouvir você! O que achou sobre essa pizza, quais pontos chamaram sua atenção e não foram destacados no texto?

O brainstorm que pode ter não funcionado bem durante o processo de desenvolvimento da pizza vai ocorrer na prática nos comentários. Vamos debater juntos, discutir esse caso e enriquecer nosso olhar e vivência profissional. Eu não sou a sabe tudo mas modéstia à parte eu sei para um caramba! Eu gosto de ouvir, trocar idéias, debater e que tragam visões que não tive. Vamos conversar e concluir o texto juntos?

Encontro vocês aqui em baixo nos comentários, não me deixem falando sozinha!!

A visão da Sra Inovadeira

A Subway pode ter feito um lançamento meio desastroso, mas com certeza ela não está sozinha. Eu já contei um caso pessoal aqui, e até a Coca-Cola já retirou produto rapidinho do ar quando viu que era cilada, Bino.

O que temos que pensar: planejamento, execução e validação. Três palavrinhas que saltam aos olhos neste caso da Subway.

Isso também é para dizer que errar faz parte de inovar– e a gente está só aguardando as próximas criações da Subway! Melhor se arriscar e errar do que ficar vendendo biscoito recheado de morango 😉

O Happy FoodTech Tacta é o maior encontro de networking de visionários e guardiões de alimentos de 2020 – você vai assistir à palestra da Raquel e mais de 45 outros palestrantes debatendo sobre as novas tecnologias de alimentos.

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3 respostas para “#fail: DISSECANDO A PIZZA DO SUBWAY”

  1. Sara de Araújo Faria disse:

    Mais um texto delicioso de se ler, com muitas verdades, conselhos e puxões de orelha. Informações muito necessárias. Parabéns, Raquel Logato! Amei o conselho “PRESTE ATENÇÃO E PARE DE SER CAGÃO”. Valorização e treinamento dos funcionários deveria ser o mínimo dos mínimos. Não consigo entender a lógica: se você depende do “chão de fábrica” para fazer o seu belo produto, por que caramba você não os valoriza? Não os trata com educação, no mínimo? Sei que não são todas as empresas que são assim, mas passei por muitas que tratavam os funcionários com indiferença e outras tratavam com falta de respeito. Em uma delas, já vi um chefe colocar um operador de castigo, sentadinho num canto, humilhando na frente de todos, como se ele fosse criança. Como eu não dou conta de ambientes assim, por mais que a falta de respeito não tenha sido diretamente comigo, eu saí. Mas o trabalhador (guerreiro) não tinha esse luxo de poder sair por causa dos boletos do fim do mês. Já passou da hora dos chefes serem líderes e terem mais empatia.

    E sobre a Pizza: nunca na minha vida vi uma pizza tão feia. Sendo que pizza é algo que é muito difícil de ser ruim.

  2. Carlos Alfonzo disse:

    Seria interessante saber o impacto no negocio e as ações que foram tomadas pela rede. Pelo visto a Subway logo depois de um pedido de desculpas simples nada fez.

  3. Raquel Logato disse:

    Carlos, eu fui a uma loja do Subway comprar um sanduíche e perguntei ao atendente como estavam as vendas após esse escândalo da pizza. Ele disse que foi benéfico para o Subway, pois atiçou a curiosidade de muitas pessoas e eles estavam vendendo muitas pizzas depois desse episódio e aumentou o número de clientes da loja.
    Ou seja, o que era para ser a derrota deles ajudou nos negócios. Isso é a prova e que o marketing negativo por vezes funciona.

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