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Tirando algumas empresas – visionárias – boa parte das empresas brasileiras de alimentos não tem um setor de P&D para chamar de seu. Aliás, trago dados: pelo menos 90% das empresas alimentícias brasileiras ouvidas no PINTEC 2008 consideram as atividades de P&D pouco importantes para a inovação. É para chorar.
Ou seja: muitas vezes não há, em toda a estrutura organizacional, uma simples caixinha que se dedique full-time a transformar ideias em produtos acabados. É muito comum, por bandas brazucas, que esta atividade seja conduzida por áreas correlatas: Qualidade (a mais comum) ou Produção (que muitas vezes é liderada por um cargo com o mesmo nome da formação do profissional que o ocupa – Engenheiro de Alimentos, Nutricionista, Técnico de Alimentos, ou afins).
Pois bem: eu lhes entendo. A Sra Inovadeira se compadece dos colegas que precisam dar conta de colocar a Produção em marcha, garantir a Segurança dos alimentos, e ainda se virar nos 30 para desenvolver cada ideia maluca que sai da cabeça da chefe.
É claro, não é? O que você faz da meia-noite às seis? Dorme? Dormir é para os fracos! 😛
Como não queremos que os seus produtos sejam amparados pela Deusa Ajudadora dos Novos Produtos, vamos a um passo a passo do que você pode fazer para não enlouquecer cumprir suas metas.
Provavelmente, aí na sua empresa tem alguém que jura que possui um canal de comunicação especial com o consumidor (ou melhor, usuário). Da mente privilegiada desta pessoa – ou dos alimentos que essa pessoa vê ou consome – brotam todas as ideias de novos produtos que a sua empresa lança. É de espantar a conexão que tal mente tem com o público.
A pessoas assim se dá o nome de “vidente”.
É você o vidente da sua empresa? Não seja.
Não suponha o que o seu usuário deseja. Descubra.
Saia de traz da sua mesa, ou da sala de reuniões, e defina o conceito do novo produto no mercado, em meio a pessoas, escutando o que elas querem, o que desejam, quais aspirações possuem.
Seja menos vidente e mais empático – você vai encontrar um mundo de oportunidades para a sua empresa antes de definir qual rumo tomar no P&D. E também vai poder alinhar o conceito do produto às expectativas do seu usuário de uma forma bem mais embasada e sem vidências e achismos.
Você vai começar do começo, não? Então transforme essas ideias abstratas que ficam vagando em salas de reuniões em um documento. Faça o solicitante do projeto aprovar o documento (de preferência, com sangue).
Se você quiser detalhes de como montar o briefing, tá na mão.
Briefing em punho, você vai para o laboratório.
Não, colega: você vai antes para o banco de dados de projetos que eu sei que você armazena aí (não armazena? Ai ai ai ai. Toma o nosso Banco de Dados de Projetos de P&D como modelo e começa a usar).
Achou um produto similar? Use como base. Não achou? Sem problemas – use a concorrência como base (mas não vá copiar, hein?). Não tem concorrência? Comece com um produto de mercado similar e ajuste para o seu objetivo.
Você deve observar a lista de ingredientes, restrições e exigências da legislação do produto, rotulagem desejada, balanço de aditivos e custo. Um fluxograma detalhado de como desenvolver a sua primeira formulação você encontra aqui.
Arrume uma balança e os equipamentos mais simples com que consiga produzir o alimento. Panelas substituem tanques encamisados, fornos substituem secadores, processadores substituem cutters. A ideia aqui não é fazer o produto perfeito – é meramente testar as coisas mais gritantes da formulação.
O produto tem muito sal? Está muito ácido? A cor está errada? Pouco aroma? Sabor de conservante? Qualquer ajuste que você conseguir fazer nesta etapa de bancada poupa os ingredientes necessários para fazer um teste piloto e industrial.
Não menospreze os testes de bancada, eles são importantes nesta primeira etapa do projeto. Vejo muita gente rabiscando fórmulas num caderno e já fazendo testes industriais – o que não é um erro é si, mas custa muito caro.
Em dois aspectos:
Portanto: erre bastante, pequeno. Faça muitos testes, pequenos. Leve para o teste industrial aquilo que já tem uma probabilidade boa de sucesso.
Ah, não se esqueça: anote todos os testes que fizer e todos os resultados que obteve, em cada teste. Numere os testes, tenha registro de cada um deles – no futuro, você vai me agradecer quando encontrar, no meio das suas anotações, a razão da precipitação de uma proteína durante o cozimento.
E, please.
2017 – não precisa mais usar cadernos de formulação, ok? O tempo do epa já passou. Tem milhares de formas de você proteger as suas preciosas fórmulas de ataques de hackers (que provavelmente estão mais preocupados invadindo a CIA e o FBI, de qualquer forma).
Se você quiser detalhes sobre os objetivos e limitações do teste de bancada, olhe aqui.
Não. Não vá direito da bancada para a planta industrial. Arranje uns equipamentos pequenos – construa, compre, alugue, peça emprestado, use o seu fornecedor, dê seus pulos – e teste o seu protótipo em escala piloto.
É aqui que seu produto começará a tomar forma. Use a escala piloto para definir o seu processo, avaliar textura, estabilidade, refinar os resultados que obteve na bancada.
Use os testes em planta-piloto para ganhar segurança sobre a formulação e o processo a serem levados para o teste industrial. Aqui você ainda pode errar, que o custo será baixo.
Novamente: anote todos os resultados que obteve nos testes. Cada nova tentativa é um novo teste – mesmo que tenha empregado a mesma formulação e processo.
Registre tudo, mesmo as coisas que não podem ser medidas. Quem está desenvolvendo um produto deve ser um CSI: olhos, ouvidos e nariz bem abertos, paladar e tato aguçados. A percepção global e atenta, usando todos os sentidos, deve ser também registrada (não apenas o que saiu no pHmetro ou no texturômetro).
Se você quiser detalhes sobre os objetivos e limitações do teste de planta piloto, olhe aqui.
Não entre na fábrica sem antes ter os riscos desta formulação e processo bem avaliados. Se você é de Qualidade, não é algo que eu precise reforçar, mas como seguro morreu de velho e a Salmonella de PCC… vale o reforço 😉
É possível que você esteja trabalhando com ingredientes já contemplados no plano HACCP – é possível que não. É possível que o seu processo seja similar aos existentes, e que use as mesmas medidas de controle – ou que você precise dar um by-pass naquele pasteurizador para alcançar a identidade do produto. Em todos os casos, faça uma avaliação de riscos antes de entrar com o produto na planta.
Quem desenvolve produtos precisa ter um olhar sistêmico sobre todo o processo que envolve transformar aquelas matérias-primas em um produto acabado – e isso quer dizer entender também exatamente onde cada risco é mitigado. Se há um risco de contaminação por metais pesados, ele é mitigado dentro da fábrica ou por seleção de fornecedores? Se há um risco de contaminação cruzada de alergênicos, ele é mitigado por separação de linhas ou validação de limpeza?
Entenda quais são as proteções atuais da fábrica e como o seu produto se comporta com elas. Um caso bem simples que já vivi: peneiras ou placas perfuradas são excelentes barreiras de proteção contra fragmentos duros e/ou cortantes acima de 2mm. Até o momento em que você precisa inserir vegetais desidratados em flocos na formulação – e a sua linda barreira usada em 99% dos produtos vai para o espaço.
Lembre-se: produto novo pode exigir medidas de controle novas.
E você não vai querer descobrir isso depois de ter contaminado toda a fábrica com Salmonella.
Quer saber como incorporar Food Safety em seus projetos de desenvolvimento de produtos, desde o briefing? Toma que o post é seu 😉
Chegou a hora do show: arrume espaço com o PCP e busque ajuda na Produção e coloque esse produto para rodar em grande escala! Se o restante da empresa não faz noção do que está sendo desenvolvido por você, é de bom tom marcar uma reunião – ou um treinamento – para revisar ponto a ponto o que irá para a fábrica (antes de ir para a fábrica). Esta também é a hora final para alinhar com a equipe de Produção e Qualidade o que deverá ser realizado durante o teste.
Lembre-se: um teste industrial serve para muitos objetivos – e não apenas “produzir o produto”. Então planeje-se para conseguir obter o maior número de resultados possível em um mesmo teste, assim você terá um panorama mais completo para tomar uma decisão.
Vamos aos mais comuns:
Ah, testou uma vez, deu certo, já pode mandar produzir? Só se o seu processo for muito bem conhecido e estável (ou seja, quase nenhum processo de alimento). Só você poderá definir com exatidão, mas o número mágico de testes industriais para validação do processo de desenvolvimento de um produto não é inferior a 3 – e pode ser maior do que 10.
Depende, novamente, da complexidade e variabilidade do seu produto e processo. Depois de todo o trabalho que você já teve, não tenha preguiça nesta hora: é melhor manter o produto em fase de testes do que apagar incêndios para o resto da vida.
Se você quiser detalhes sobre os objetivos e limitações do testes industriais, olhe aqui.
Encontrou o resultado que queria? Chegou na formulação e processo que precisava? Volte lá, analise seu briefing, verifique se todas as entradas foram atendidas – e documente o seu processo (se você não fez isso durante as etapas, bem, faça isso agora).
Agora é só colocar uma fórmula no sistema e partir para o abraço?
Não, não!
Para de fato dizer que seu desenvolvimento está finalizado, tem que realizar uma série de entregas – e aqui neste post a gente viu isso em mais detalhes.
Um post inteirinho sobre registros de desenvolvimento de produtos aguarda vossa leitura, oh, magnânimo visionário e estimadíssima visionária.
Como o mais provável é que você seja de Qualidade ou Produção, já faz parte do seu trabalho: o primeiro lote “para valer” entra em produção, e você estará lá, cumprindo o seu papel. Contudo, lembre-se que o chapéu de P&D continua na sua cabeça até o produto se estabilizar. E isso acontece nas primeiras produções.
De fato, o acompanhamento industrial não deixa de ser uma das entregas de P&D ao fim do processo de desenvolvimento – é neste acompanhamento que decisões importantes sobre faixas de liberação, por exemplo, serão tomadas.
Quando você perceber que as flutuações aceitáveis para o produto já foram todas mapeadas, é hora de registrar as conclusões e ajustar os documentos de liberação do produto (especificações internas, comerciais e o que mais vocês usem para liberar o produto acabado).
(Só um “pequeno” detalhe: se você executou bem o passo 7, aqui não é hora de fazer ajustes de formulação e processo. O produto já está desenvolvido, então tudo já deve estar rodando dentro do esperado – este é um momento de colheita de dados para análise estatística mais robusta, e nada mais.
Se você se vir em meio a alterações de formulação e processo quando o produto já estiver sendo produzido para venda bem… aceite o fato de que vocês estão vendendo testes.)
Se você quiser detalhes sobre os objetivos e limitações do acompanhamento industrial, olhe aqui.
Terminou tudo, a produção está estabilizada e o produto saindo no conforme? Pode correr para o abraço?
Bom, aqui traçamos uma linha entre quem é de fato um pesquisador de alimentos e quem faz “bico” (com todo o respeito 😛 ) na área. Mesmo que o seu cargo não seja “pesquisador de alimentos” ou “analista de P&D” (ou coisa que o valha), você está usando este chapéu quando desenvolve um produto – então ainda falta uma última etapa: a validação.
A validação do processo de P&D serve para confirmar que as etapas adotadas acima foram adequadas e suficientes para atender ao briefing. E também para averiguar se o processo de P&D desenhado pela empresa é adequado para os seus objetivos.
Você pode fazer isso de algumas maneiras:
Quer o mapa do tesouro? Aqui vai:

Quem sabe eu não possa lhe ajudar num próximo post?
Ps.: Tá vendo o trabalho que dá fazer Pesquisa e Desenvolvimento, visionário?
O Brasil, de fato, parece ainda viver um conflito: é um grande mercado, mas ainda não se colocou como uma referência global para a Pesquisa e Desenvolvimento de novos produtos – mesmo em firmas multinacionais estabelecidas aqui. Contudo, pesquisa realizada em solo brasileiro mostra que a existência deste processo é sim determinante para a capacidade de inovação de uma empresa.
Para você pensar: o investimento em atividades internas de pesquisa e desenvolvimento na indústria alimentícia no Brasil está na faixa de 0,15% do seu faturamento. Na Europa, está em em 0,27% e nos Estados Unidos em 0,57%, enquanto que empresas de alimentos holandesas investem mais de 0,6%.
Há que se considerar que os gastos com P&D não são diretamente relacionados com a relevância da inovação, como diz este artigo da Forbes – mas também não tem milagre, não é? Se quisermos uma indústria de alimentos mais protagonista – e que dependa menos da flutuação do dólar – temos que colocar a mão no bolso.
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