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QUINTA-FEIRA

Postado em 28/10/2021 por Raquel Logato
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A coragem de abandonar o que habitual e certo para se lançar no desconhecido precede a chegada de novos tempos e novas coisas em nossa vida. Eu aprendi isso já na tenra infância quando tinha que pular de escola em escola devido a falta de dinheiro para arcar com o pagamento das mensalidades, quando mudava de casa frequentemente, quando largava um crush danoso para tentar conhecer alguém legal e muitas outras experiências pessoais. 

A carta que você lerá a seguir eu escrevi endereçada a mim mesma em uma quinta feira a tarde e enviei para meu esposo e 3 amigos – Douglas Lima,  Gisele Souza e Cristina Leonhardt. Enviei para pessoas destemidas, valentes, que me conhecem bem e pensam como eu. Que sabem da minha capacidade e não me estimulariam a aceitar ser ou estar em qualquer coisa ou lugar. Pessoas que seriam capazes de sair de casa para ir aonde eu estivesse para me dar um puxão de orelha e me estimular a olhar para minhas crenças e valores de forma consciente. No momento da escrita coloquei toda minha indignação e vontade de superar as dificuldades em um papel e firmei o compromisso de que somente a exibiria para outros profissionais quando eu pudesse mostrar que há caminhos que não são os nossos e lugares que não foram feitos para nós. Que podemos e devemos abrir mão do que não nos fará feliz e sufocará nosso talento para ir em busca do que nos fazer sorrir, ter auto satisfação e gera sentimento de valorização. 

Jamais devemos dar espaço para que alguém atrapalhe nossa jornada e tente jogar uma pá de cal sobre a nossa luta, história profissional, acadêmica e pessoal. As pessoas e instituições só fazem conosco aquilo que nós deixamos que elas façam. Se você deixar, o jogo corporativo te maltrata, te massacra e te pisa sem dó. Então ocorre a morte dos sonhos, saúde, desejos, valores, formações e em alguns casos drásticos há morte física provocada pela dor que a desvalorização traz. Devemos mostrar que o jogo é difícil, mas entramos para jogar e também estamos no comando. Seja em maior ou menor posição hierárquica no ambiente de trabalho, a nossa narrativa é apenas nossa e jamais deve ser colocada para baixo do tapete devido ao vil metal ou ao medo de não conseguir nada.

Te convido a ler a carta que escrevi há 5 meses num momento de grande tensão pessoal e profissional e tirar dela forças para emergir do caos que você possa estar vivendo.

Quinta feira, 06/05/2021, mais conhecido como o dia que eu cheguei no meu futuro gerente e disse não.

A indústria de alimentos na qual trabalho foi vendida. Desempenho aqui um cargo corporativo e atuo com assuntos regulatórios. Depois de muitas incertezas quanto ao meu futuro recebi a proposta de novo cargo na empresa nova: sair do corporativo e ir para o chão de fábrica fazer recebimento de embalagens e etiquetas. Isso veio somado a seguinte advertência verbal: “-Querida, aqui na **** é trabalho. Sei que você tem seu blog ai, tuas coisas virtuais mas aqui na empresa não pode essas coisas.” Respondi que sou profissional, que na hora que bato meu ponto de entrada até a hora da saída eu tenho minhas responsabilidades de trabalho e que quando saio eu posso fazer o que quiser e que isso é algo particular.

Olhei para o que se apresentava diante de mim e comparei com minhas formações, meu talento, descrição das atividades propostas e disse não. Naquele momento vi que ser bilíngue, ter muito estudo e diplomas não valia de nada. As funções do novo cargo e a escala hierárquica seriam adequadas a um profissional que possui nível médio incompleto. Ali me senti mais uma mulher preta muito bem formada que possuía diplomas com o mesmo valor de um papel higiênico sujo. 

Conversei com o gerente sobre a proposta e disse que para a curva ascendente que eu estava traçando na carreira a **** se propôs a me colocar de volta sem opção de escolhas e descalça no início da pista de corrida corporativa. Assinalei também que pesquisei sobre a empresa e observei de forma ocular durante o período de transição o perfil dos funcionários de cargos estratégicos da **** e ficou nítido que não havia políticas de diversidade de gênero, sexual e racial. Isso ficava explícito no corpo técnico da empresa que em sua maioria é branco, masculino e de meia idade. Não vi um negro e nem mesmo um pardo, só tinha gente que atendia o padrão aceito socialmente. Isso já me mostrava que mesmo indo para o início da pista de corrida por falta de um posto de trabalho compatível com minha formação nesse momento, eu nunca chegaria a uma boa posição e sequer voltaria para o corpo técnico, pois sempre seria preterida em virtude de cor, gênero, idade e outras questões veladas. Não havia uma política clara de cargos para mim, um desenho de quando e como eu poderia voltar a desempenhar uma função que exige nível superior, não houve interesse em conhecer meu trabalho ou meu talento, eu simplesmente seria conduzida a um lugar que eu lutei muito através dos estudos para nunca precisar ingressar. Contei para o gerente sobre a história da CIA, como a falta de diversidade gerou os atentados de 11/09 e como a **** estava se comportando como eles através de sua política de contratação e promoção de funcionários. Se querem ser a cara do Brasil e uma empresa que entra no lar dos brasileiros, então qual é o Brasil do qual estamos falando? Se não há diversidade, não se dialoga com todos os brasileiros, pois o Brasil não é branco; então uma empresa não pode ser em sua maioria branca. 

Ele por um momento parou, pensou e viu que eu tinha razão. Ficou impressionado com minha franqueza e a forma como conduzi a conversa (high level, né gente!). Lamentou por me perder devido ao meu nível de conhecimento, visão de mundo e visão de negócios. Disse que ficou impressionado com meu currículo mas era o que tinha a me oferecer adequado a meu perfil… receber embalagens e etiquetas. Eu lamentei o fato de eles pegarem um diamante como eu e quererem colocar num baú jogado na escuridão do fundo do mar. Frisei que sou uma pessoa criativa, inovadora, que gosta de pensar e que seria uma morte lenta trabalhar em algo que não precisa pensar e que nem graduação precisava ter. Mas no fim das contas é isso que há para mim ou então a porta da rua é serventia da casa. Preferi a porta da rua, pois essa casa não é feita para alguém como eu passar 10 horas do meu dia.

Hoje posso ter a segurança de chegar em casa e ouvir com muita ternura do meu esposo que aceitar a proposta da **** seria uma humilhação e que posso sair do emprego; mas e quem não tem essa abertura? E quem tem que se submeter a um down round de carreira, ao suicídio intelectual e criativo e a ter sua mão de obra de ouro sendo vendida a preço de banana podre? Meu salário diminuiria? Não. Perderia benefício? Não. Mas é sério que lendo até aqui você ainda acha que essa é uma questão de dinheiro e devemos nos contentar com um salário e ficar aonde estamos? Que seria fácil trabalhar numa função operacional e seguir protocolos pré-definidos pelo corporativo e ter uma renda no fim do mês? Que é melhor ter uma fonte pingando do que não ter nada? É sério que você ainda acha que esse papo é sobre dinheiro? Esse papo é o reflexo de um Brasil que saiu do Período Colonial mas carrega raízes escravocratas tão fortes que a população negra é empurrada a aceitar aquilo que lhes é concedido sem reclamar. Os cargos, salários, posições, promoções e oportunidades mais ralés são nossas, se chegar um branco com 1% de nosso conhecimento e com “boa aparência” ele já passa na nossa frente. Isso tem mudado, mas a maioria das empresas presentes em terras tupiniquins ainda carregam preconceitos e discriminação no momento de seleção e promoção de funcionários.

Nem um passo atrás será dado. Eu sou dona da minha história, da minha narrativa e da minha carreira. Sei de onde eu saí e sei de onde quero chegar; não estudei para ter um desempenho técnico de alto nível e ser conduzida a uma função de nível fundamental. Não saí de um estado para vir morar em outro e trabalhar numa função corporativa e do dia para noite ser lançada no chão de fábrica para fazer recebimento de embalagem das 7h às 17h. Tenho enraizado dentro de mim que quem me escolhe não é a empresa, sou eu quem escolho a empresa. E hoje, para a ****, eu digo não. Lamento muitíssimo que a história que nem começamos foi abortada de forma prematura e sem sentido, mas vocês perderam uma ótima funcionária que tem uma versatilidade gigante para atuar em diversas áreas sem precisar se submeter a chão de fábrica. Jogo nas 11, só não aceito sair de campo e ser jogada na arquibancada. 

E querida ####, sabendo que ia vender a empresa por que permitiu que eu me desfizesse de todos os meus móveis, renunciasse ao convívio com minha família e viesse para cá trabalhar com vocês? Isso é sadismo, egoísmo ou é pensar tanto no capital a ponto de não ver que o seu maior ativo, os funcionários, ficaram assustados e desesperados com essa venda repentina? Muitos ficaram sem saída e aceitaram o cargo que lhes apareceu; outros ficaram sem emprego e precisarão recomeçar; e eu abri mão do emprego porque não quis regredir. Não guardo rancor ou ressentimento, pois trabalhei muito, aprendi muito, conheci gente nova, amadureci como ser humano e sempre recebi em dia. Recebi a chance que sempre quis de entrar no setor industrial de alimentos, conhecer processos e saber de perto como funciona uma fábrica. Mas o descaso de vocês com as emoções e planos de vida de seus colaboradores nesse momento de venda da empresa foi lastimável!

Hoje mais um talento negro sofreu uma tentativa de assassinato profissional devido a brutalidade do sistema que insiste em nos empurrar para baixo, que diz que não tem vagas, que não abre portas e que quer nos condicionar à nossa condição histórica que é o chão de fábrica e aos cargos mais baixos.

Hoje peço que me mandem jobs, mas mandem jobs que me valorizem. Eu não estou pedindo cargo de gerente, CEO, diretoria, estou pedindo apenas respeito e reconhecimento pela profissional que sou. Estou pedindo apenas para me olharem e verem que aqui tem uma mulher preta, culta, bilíngue, egressa de universidade federal, pós graduada, inteligente, sagaz, que tem jogo de cintura, excelente na arte da comunicação e uma fera na escrita. O talento já vai chegar na sua empresa pronto, precisando apenas ser moldado conforme a natureza do trabalho. O diamante negro valioso está aqui, mas o racismo estrutural faz com que muitos gestores avaliem a pedra preciosa como bijuteria.

Como canta Kmilla CDD e vou escrever em letras garrafais: DEIXA A PORTA ABERTA PRA QUE A PRETA ENTRE. Parem de dizer que não tem vagas ou travar as portas para nossa entrada.”

5 meses após a escrita dessa carta, dizer esse não, me ver desempregada sem direito a seguro desemprego, longe da família e amigos só com o dinheiro da rescisão na conta eu:

  1. criei um marketplace;
  2. após indicação da amiga virtual Karina, de SP, recebi uma oferta de trabalho em outro estado;
  3. me mudei de estado;
  4. conheci um monte gente nova e legal;
  5. pude receber uma visita dos meus pais que estavam cheios de saudade de mim e do meu esposo;
  6. pude fazer uma viagem de emergência para resolver questões pessoais;
  7. recebi duas propostas de emprego 10 dias após chegar no novo estado e declinei ambas;
  8. Cristina Leonhardt  (para vocês é Sra. Inovadeira, para mim é também mentora e fada madrinha de carreira), me indicou para o processo de uma empresa que fazia meus olhos brilharem desde a graduação;
  9. Enfrentei um baita processo de seleção com muita coragem e fé, dando 101% de mim;
  10. Passei no processo, pedi demissão da empresa que me trouxe para o outro estado e estou como manager numa empresa de abrangência global que era meu sonho de consumo;
  11. Pulamos de felicidade em 3 estados: eu, esposo, meus pais e Cristina;
  12. Dei alegria para os meus pais e atingi uma posição e salário que almejava há tempos e que parecia intangível antes dos 30. Sobrava capacidade e ousadia mas faltava oportunidade.

Você acha que tudo isso teria acontecido se no dia 06/05/2021 eu tivesse aceitado o destino que queriam traçar para minha vida? Tenho certeza que não e essa carta seria apenas mais um latido de um cão que ladra mas não morde.

Resignifique o #TBT na sua vida. Think better tomorrow, darling!

O Sra. Inovadeira é todo sobre coragem. Se não fossem a coragem e os “nãos” esse site não existiria e você não saberia quem é Cristina Leonhardt, Dafné Didier, a Tacta Food School seria uma utopia e a carreira de muita gente no P&D seria mais do mesmo. Ouso dizer que patinariamos um pouco em inovação de alimentos.  Viu o que a visão e coragem fazem?! Olhe para si e pense: eu sou ou não um (a) visionário(a)? Assuma risco e vá atrás da sua felicidade.

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2 respostas para “QUINTA-FEIRA”

  1. Bianca Alves disse:

    Que texto maravilhoso Raquel!!! Parabéns pela coragem e sabedoria! Vc é uma fonte de inspiração.
    Abraços 🙂

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