OS 5 PARADOXOS ATUAIS DA INDÚSTRIA DE ALIMENTOS

Postado em 25/08/2020 por Cristina Leonhardt
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Paradoxo: aparente falta de nexo ou lógica. Contradição.

Segundo a futurista Amy Webb, um paradoxo, ou contradição, é um dos elementos fundamentais para identificar mudanças. Se há um paradoxo, algo que contraria a lógica ou as crenças básicas do pensamento humano, há possivelmente uma mudança em curso.

E paradoxo, caros visionários, é o que mais acontece no mercado de alimentos.

Se você não está confuso ou confusa com o rumo a ser tomado, se você não fica perplexo com as solicitações antagônicas que aparecem nas mídias sociais, os movimentos de apoio e ódio ao mesmo tempo, talvez você não esteja prestando a devida atenção.

Quer uma amostra? Neste artigo, vamos explorar 5 paradoxos atuais da indústria de alimentos. Contradições que encaramos ou que vivenciamos, que geramos ou que não conseguimos evitar.

Ao final, lhe convido a uma reflexão.

Antes, porém, vamos a eles: os 5 paradoxos atuais da indústria de alimentos.

Precisa inovar, mas tem que produzir comida de verdade

Já parou para pensar que paradoxo estranho vive quem trabalha com inovação em alimentos? Uma pressão constante por lançar the next big thing – e ao mesmo tempo, o consumidor buzuzando no ouvido o tempo todo: quero comer comida que a minha avó comeria.

Se tira açúcar da Sprite, o consumidor reclama: não é mais a minha Sprite.

Se faz produto megaindulgente, o consumidor grita: isso é uma bomba calórica.

Se cria produto vegetariano que até ontem não existia, o consumidor exige: quanto aditivo!

É, não está fácil inovar na área de alimentos.

Mas isso, caro visionário, digníssima visionária, é porque pegamos tudo o que de bacana pode vir da inovação e concentramos em apenas um único resultado possível: produto.

Inovação é bem mais do que produto.

Inovação em alimentos, inclusive, possivelmente deveria passar bem longe de produto. Mantém o produto bonitinho ali, como ele sempre foi, a receita tradicional.

E se joga na embalagem, no modelo de negócio, no processo, nos serviços, na comunicação, em tudo o que circunda o alimento.

Dá para produzir comida de verdade e ser inovador ao mesmo tempo? Dá. É um paradoxo? É.

Como a gente resolve isso?

Essa equação realmente não é fácil de equalizar – mas uma saída bastante óbvia é se aprofundar no conhecimento do seu consumidor, impulsionando o desenvolvimento centrado no usuário. A Tacta desenvolveu a metodologia autoral FoodValue, que permite o mapeamento das zonas de valor de um novo desenvolvimento conforme 5 camadas de valor possíveis de um alimento.

Orçamento de Marketing gigante, mas não domina a conversa

Quem vê a indústria reclamando, dizendo que as pessoas não sabem do que falam, ou inclusive patrocinando eventos online com quem “realmente entende do assunto”, pode pensar que ela é frágil, indefesa, a ponto de se desmanchar.

Mas isso não é verdade. O orçamento de Marketing na área de alimentos é gigante. Em teoria, a indústria está muito bem preparada e armada para ocupar posições no campo de batalha das mídias sociais.

Por que, então, a cada dia surgem novas desinformações a respeito de alimentos, e a indústria fica como naquele jogo da toupeira e o martelo, batendo na cabeça de um para outros 4 surgirem?

A Edelmann vem alertando há alguns anos que a pirâmide da influência se inverteu. No passado, quem tinha autoridade também detinha a influência. Já em 2016, este cenário mudou: as fontes de notícia principais passaram a ser pessoas como nós mesmos, ou os mecanismos de buscas.

Alguém falou influencers?

E nem precisamos chegar neles, apesar da sua óbvia influência sobre os pensamentos.

A indústria, por mais dinheiros que tenha, não controla mais a narrativa. Muito menos o início dela: qualquer tiazinha com um celular na mão pode criar o próximo vídeo que a sua empresa terá que desmentir, dizendo que não, aquilo não é câncer na carne.

Dá para dominar a conversa e ser autoridade no assunto ao mesmo tempo? Dá. É um paradoxo? É.

Como a gente resolve isso?

Marcar uma presença online forte e empática e abrir os canais de comunicação parecem ser duas chaves importantes para dar conta da avalanche de desinformação que assola o mercado de alimentos. Um SAC atuante e programas de relacionamento com pessoas chave do mercado também precisam estar na estratégia do Marketing de Alimentos – e você encontra mais ideias no nosso ebook “Abra esta Caixa Preta – Ideias para Inovar em Transparência em Alimentos”.

Produz comida, mas não quer ser vista como cozinha

Talvez nem seja a indústria que não queira ser vista assim: mais quem trabalha nela. E isso já é ranço que vem da formação técnica – como no caso do professor universitário que me disse, com todas as letras no Instagram, que seus alunos não precisam saber fazer pão para produzirem pão em uma indústria.

Pobres alunos.

Espera-se então que construam prédios sem saber o que são paredes, telhado e piso. Espera-se que dirijam filmes sem saber filmar. Espera-se que escrevam livros sem saber escrever.

 O ápice, contudo, é quando mudam os ingredientes de um produto – mudança acompanhada de um belo splash no rótulo: nova fórmula.

Fórmula?

Como fórmula química?

Na sua casa fazem fórmula de pudim? Qual é a fórmula de lasanha da sua avó? Quantas fórmulas de comida você sabe fazer?

Quem come, come comida. E comida é feita por receitas.

Dá para ser uma indústria e se enxergar como uma grande cozinha? Dá. É um paradoxo? É.

Como a gente resolve isso?

Parando de ser besta. E isso começa lá na faculdade, onde professores e professoras precisam entender que a indústria de alimentos traz conveniência para um consumidor que, sem ela, poderia preparar o próprio alimento em casa. Se quer substituir alguém que cozinhava até ontem, então engenheiros, tecnólogos, cientistas, químicos, nutricionistas, veterinários e demais profissionais técnicos de alimentos precisam saber cozinhar.

Quer vender para ele, mas briga com o seu próprio consumidor

Consumidor lá, de boas, dizendo: quero isso, me dá, indústria.

Quero produto fácil de entender. Quero comida que eu reconheça. Quero comer mais vegetais. Quero menos açúcar. Quero empresa que se preocupe com o meio ambiente. Quero empresa que respeite os meus valores.

E a indústria faz o quê? Briga com o consumidor. Faz queda de braço. Quer mostrar que está certa. Que o que faz – que só engenheiros, tecnólogos, cientistas, químicos, nutricionistas, veterinários e demais profissionais técnicos de alimentos entendem – é “normal”.

Teve um tempo em que se vendia balas de cocaína para dor de dente. Este tempo foi 1885. Hoje não cola mais e vai colar cada vez menos. A indústria pode chamar de desinformação o quanto quiser, mas nem tudo é.

Suco não é saudável.

Bebidas açucaradas não ajudam a hidratar.

Cereais açucarados não são altamente nutritivos.

E, sim, existem ultraprocessados.

(Aceita que dói menos.

Ao invés de lutar contra o termo, que já grudou na cabeça e se espalhou pela pesquisa científica no mundo todo, que tal planejar para um cenário futuro em que a indústria navega com ele?)

Dá para vender para alguém e brigar com ele ao mesmo tempo? Não dá. É um paradoxo? É.

Como a gente resolve isso?

Tem que ter cabeça aberta e flexível, capaz de permitir que conhecimentos que não foram gerados dentro da indústria e das faculdades criadas para lhe atender também são válidos. Aprender a criar cenários futuros desejados, mas também cenários possíveis e prováveis – para montar a estratégia do negócio – é uma atividade que precisa entrar na rotina da indústria de alimentos.

Se não dominamos mais a narrativa, podemos aprender a “ler” as mudanças do mercado e navegar com elas.

Produz cada vez mais alimento, mas não alimenta todo mundo

Parques industriais cada vez mais gigantescos – Brasil o 2° maior exportador de alimentos, com produção de 240,7 milhões de toneladas em 2019. Somos gigantes em coisas que pessoas comem (carne, leite, café, açúcar, suco de laranja) e em coisas que as pessoas aqui não comem – soja, cana, algodão. Somos recorde de superávit primário, produção de alimentos mais eficiente em diversas cadeias, exemplo de competitividade na carne de frango e suína, por exemplo.

Mesmo assim, aqui mesmo no Brasil, e provavelmente na sua cidade (talvez no seu bairro) tem gente passando fome.

Como pode ser que o grande celeiro do mundo deixa gente passando fome? Por que tanta produção não está disponível para todos, todas e todes? Como podemos sequer conviver com este paradoxo?

Fazer chegar alimento barato e nutritivo a toda a população é um dos maiores dilemas no nosso complexo sistema alimentar. Nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, é a meta 2: Fome Zero até 2030. Temos 10 anos para chegar lá – e o cenário atual não é promissor.

A insegurança alimentar moderada ou severa cresceu nos últimos 5 anos (de 22,4% da população em 2014 para 25,9% da população em 2019). Em que região este crescimento é maior? Na América Latina, que aumentou em quase 5 p.p. O Brasil, que saiu do mapa da fome em 2014, agora caminha a passos largos para ele, diz Daniel Balaban, Diretor do Programa Mundial de Alimentos no Brasil.

É muita gente.

O que é pior: com UM QUARTO do desperdício de alimentos a gente acabava com a fome. Ou seja – o problema está longe de ser produção.

Dá para produzir alimentos e alimentar todo mundo? Dá. É um paradoxo? NÃO DEVERIA SER, mas é.

Como a gente resolve isso?

Precisamos inicialmente entender a pergunta e mudar problema a ser resolvido.

A questão não é “conseguiremos produzir alimentos para 9 bilhões de pessoas em 2050?”. Isso claramente já está resolvido, hoje mesmo.

A questão mais correta a ser resolvida é “conseguiremos fazer a comida chegar aonde ela precisa estar?”, o que muda a perspectiva de capacidade para fluxo.

É um problema complexo que não será resolvido com bala de prata. Aumentar a produção de alimentos não será suficiente para resolvê-lo, se não complementarmos com outros fatores, como melhoria das cadeias logísticas, renda mínima universal e sustentabilidade.

2020 não está fácil para a indústria de alimentos: consumidor cada vez mais exigente, pandemia, perdeu a queda de braços com a Anvisa e a rotulagem nutricional frontal vem aí e ainda por cima está tendo que reinventar todo o seu Marketing, para entrar finalmente no mundo digital.

Quer ser um visionário ou visionária de alimentos? Pegue um destes paradoxos para chamar de seu.

Entenda ele.

Resolva ele.

Quem sabe, no futuro, veremos o quanto ele era um sinal de mudança, e você será quem mostrou o caminho para a sua solução.

Uma forma excelente para entender estes paradoxos é imergir no pensamento original de quem vive o mundo de alimentos por diferentes perspectivas.

Participe do Happy FoodTech Tacta 2020 e conheça o que mais de 40 palestrantes têm a falar sobre as novas tecnologias e inovação, nas 5 trilhas de conhecimento que compõem o evento online e gratuito:

Trilha 1: Novas tecnologias e a comida do futuro

Trilha 2: Vozes diversas importam na inovação de alimentos

Trilha 3: Regulatórios de alimentos no mundo VUCA

Trilha 4: Qualidade 4.0

Trilha 5: Negócios de alimentos – inspiração e tecnologia.

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