UMA NOVA PERSPECTIVA: NÃO CONFUNDA NORMAL COM COMUM

Postado em 30/07/2020 por Cristina Leonhardt
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Dias desses, em um dos 76.897 grupos da área de alimentos em que estou (sim, sou dessas – tenho que estar em todas as rodinhas), começamos a discutir rotulagem de alimentos. Mais especificamente, rotulagem de um iogurte que trazia, no painel frontal, estampado em todas as letras garrafais da vida, “leite de procedência”.

O que é essa procedência?, comentava uma colega. Talvez este tenha procedência e o meu não?, completou outro, e seguiu: será que o consumidor entende o que é leite de procedência?

Nesse momento, o assunto chamou a minha atenção (engenheiros de alimentos que se preocupam com a percepção do consumidor, glória a Deuxxxxxxxxxxxxx) e eu baixei as fotos da conversa. Além do painel frontal, vinha lá a lista de ingredientes: leite desnatado e/ou leite desnatado reconstituído, seguido (ou seria seguidos?) de uma série de outros ingredientes.

Esse e/ou é algo que me deixa fora do sério.

Como assim eu posso usar um ingrediente e outro? Um ingrediente ou outro? Um produto com 1 e/ou tem 3 receitas possíveis. Se forem 2 e/ou, já estamos falando de 9 combinações. Se a lista de ingredientes é usada pelo consumidor para fazer escolhas, como ele pode estar tomando uma boa decisão se não sabe qual produto está comprando entre 3 possibilidades?

Eu sei que está previsto na legislação e que não há nada de ilegal em usá-lo. Ou… talvez haja. Afinal, o Código Brasileiro de Defesa do Consumidor fala que é direto básico do consumidor “a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de quantidade, características, composição” (Art 6°, inciso III). Não acredito que esteja no espírito desta legislação o tal do e/ou.

Meu comentário no grupo: esse e/ou me mata.

E então saíram os defensores da indústria tal-com-ela-é, fada-sensata, nunca-errou, para me dizer que isso era normal, que se está na legislação, tudo bem e que faz parte da sazonalidade.

Foi neste momento que me lembrei como é fácil a gente confundir algo que é comum com o normal.

E que isso, para quem trabalha com inovação, é a morte.

Enxergando a Matrix para inovar

Eu dediquei o ano de 2015 para entender o que era normal para outras pessoas. A vida que eu levava até então era “normal” no meu círculo próximo: trabalhar para uma empresa, dedicar-se ao máximo, lutar por promoções e aumentos, comprar um apartamento, gastar metade do salário com a aparência certa para circular no escritório, viajar nos feriados para a praia e nas férias para algum lugar da moda.

Mas será que esse círculo de ganhar-comprar-gastar-precisar ganhar novamente era “normal” para todo o mundo? Fomos explorar isso viajando, imergindo o máximo possível em outras culturas e saindo um pouco desta corrida de ratos.

O resultado? Não existe normal. Apenas comum.

Supermercado comum em Hanoi, Vietnam

É muito fácil confundirmos comum com normal. Tão fácil que vira um bloqueio e, nos casos mais perversos, preconceito transvestido de normalidade.

É comum homens ocuparem cargos de liderança, então pensamos que é normal.

É comum mulheres serem as responsáveis primárias pelos cuidados com crianças, então pensamos que é normal.

É comum deixarmos bebês de 4 meses em escolinhas para podermos trabalhar, então pensamos que é normal.

É comum pagarmos tudo em prestação, então pensamos que é normal.

É comum estarmos imersos em círculos de pessoas que têm a mesma cor que a nossa, então pensamos que é normal.

A questão é que “normal” é algo extremamente cultural. Quando saímos da cultura em que estamos, puf!, lá se vai o normal.

É comum, em São Paulo, que as pessoas fiquem de 1 a 2h por dia em trânsito para o trabalho, então em São Paulo pensamos que é normal. Aqui no Rio Grande do Sul, se eu falo que viajo 1h por dia para trabalhar, já me perguntam por que eu não me mudo.

É comum comer churrasco sentado, como uma refeição, no Rio Grande do Sul, e cada um cortar a sua carne no seu prato, então pensamos que é normal. Já em São Paulo, é comum todo mundo comer em pé, pedacinhos de carne que são picados pelo próprio churrasqueiro, como um petisco. No Ceará, não é churrasco se não vier acompanhado de massa, arroz, feijão e todos os complementos de uma refeição.

É comum tirarmos férias remuneradas todos os anos no Brasil, mas nem nos EUA, nem na China, isso é normal.

Entender a diferença entre o comum e o normal é uma das competências mais importantes para quem trabalha com inovação. Quem passa a vida considerando tudo normal, sem perceber que “normal” é basicamente “cultural”, não vai questionar o status quo, porque simplesmente não o enxerga.

É incapaz de inovar – ao menos, não significativamente.

Temos que ser capazes de enxergar a Matrix: esse conjunto de normas que tecem as relações da nossa sociedade, mas que podem ser diferentes em outras culturas. É preciso, basicamente, ter olhos de novato em relação à nossa própria cultura.

Com olhos de novato, sempre frescos, somos capazes de entender que algo muito comum não se torna necessariamente normal. Somos capazes de perceber, por exemplo,  distorções causadas por políticas que não incluíram todos os atores ou processos que precisam ser mais bem conduzidos. Podemos trazer exemplos de outras culturas e polinizar nossas ideias com inspirações de outros mercados e outras tecnologias.

E isso, visionário e visionária, também vale para a área de alimentos.

Mude a perspectiva e enxergue o que é comum em alimentos

O exemplo do início do texto é um caso de legislação que não contou com a participação de um dos principais atores interessados: o consumidor. Sim, há legislação permitindo o e/ou. E sim, ela atende aos interesses da indústria e possivelmente aos interesses do órgão legislador.

Mas será mesmo que ela atende aos interesses do consumidor?

Faça um teste: compre um iogurte com e/ou na lista de ingredientes e leve para a sua tia ler. Peça para ela lhe dizer do que é feito o produto que ela está segurando. E observe. Não induza a resposta.

Temos mais legislações para citar como exemplo. O padrão de identidade e qualidade da cerveja é um dos mais controversos – principalmente se você é um celíaco. Cerveja sem glúten pode ser tanto a cerveja feita com malte sem glúten quanto aquela, enzimada, que testa abaixo do limite de glúten de um regulamento específico.  

Na falta de um regulamento específico no Brasil, usa-se comumente os 20 ppm do Codex Alimentarius: usamos tanto, que passamos a achar normal.

Mas não é normal.

Está cheio de celíaco que reage mesmo a este nível de glúten. Também há estudo (pequeno, ok) mostrando que alguns reagem aos peptídeos residuais após a hidrólise enzimática. Se estivéssemos na Argentina, o limite seria 10ppm. No Chile, Austrália ou Nova Zelândia, 3ppm.

Ou seja, até o limite de glúten não é normal. É comum.

(E não adianta vir me xingar nos comentários.

Na última vez que abordei o assunto cerveja sem glúten, a família cervejeira se uniu para me dizer que um blog de tecnologia de alimentos deveria saber sobre o processo de enzimação.

First, este não é um blog de tecnologia de alimentos.

Second, óbvio que eu sei sobre enzimas.

Third, você é quem não entendeu meu ponto.)

Contudo, não é para criticar legislações que comecei a escrever este artigo (ou é, em parte. Preciso desabafar com a tela).

Se confundimos comum com normal, perdemos a capacidade de enxergar oportunidades incríveis ao nosso redor. E quem quer inovar precisa manter este radar ligado.

Lugares-comum / lugares-para-inovar

Estamos tão habituados com certas dinâmicas do mercado que nem as percebemos mais. É tudo normal – mas na verdade, comum, altamente comum.

A primeira pizza congelada, a primeira cerveja artesanal, o primeiro hambúrguer plant-based: todos são exemplos de produtos que foram possíveis porque alguém viu além do que era comum e propôs um novo paradigma.

Comida de rua comum em Xi’An: sopa wonton em tigela envolta em plástico

Era comum um frigorífico vender presunto, frango, salsicha, tanto que se achava normal. Alguém viu além deste “normal” para se entender como parte de uma empresa de alimentos, não de um frigorífico. Até o ponto em que hoje é comum que alguns dos maiores players do mercado plant-based sejam justamente… frigoríficos.

Era comum beber cerveja pilsen aguada, de baixa fermentação, no Brasil – tanto, que considerávamos normal o paladar pouco exigente do brasileiro. Alguém viu além deste “normal” e colocou a cerveja artesanal no radar: começando um mercado que hoje movimenta 2,4 bilhões de reais e tem cerca de 900 empresas.

Quais são os nossos comuns de hoje?

Comemos arroz com feijão, adoramos um buffet por quilo e tomamos café quente.

Somos carnistas, amamos um doce, não lemos rótulos e compramos nossa comida em supermercados entupidos até o teto de alimentos.

Estamos sempre com pressa, comemos no carro, academia após o trabalho e 2 filhos por família.

Quem faz a lei é Brasília, o que falta é fiscalização, o povo não tem voz.

Coca-cola (convenhamos, não tem nada de normal. Pense a respeito).

Menu infantil e paladares cada vez mais infantilizados nos adultos.

Cada empresa por si, concorrente é meu inimigo e quem colabora está querendo ter vantagem.

Tudo muito comum.

Mas não normal.

A próxima vez que você estiver a ponto de dizer “isso é normal”, eu lhe convido se fazer algumas perguntas:

Isso é normal?

Para quem?

Onde?

Em que contexto?

Até quando?

Ou apenas é comum?

Eu lhe convido a mudar a perspectiva de normal para apenas comum – e, junto a esta mudança, passar a enxergar todas as possibilidades que existem emaranhadas naquilo que (por enquanto) é apenas incomum.

Como você, visionário e visionária, poderia propor um novo paradigma para o nosso mercado?

Comece não confundindo comum com normal.

Você pode estar prestes a ver tudo pela primeira vez novamente.


Que tal repensar o que é “normal” na sua carreira também? Será que é normal trabalhar no mundo corporativo – ou seria apenas comum?

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2 respostas para “UMA NOVA PERSPECTIVA: NÃO CONFUNDA NORMAL COM COMUM”

  1. Carla Moreti disse:

    É comum ouvir que os produtos no Brasil são entupidos de açúcar e extremamente doces porque os brasileiros gostam e estão acostumados assim. Será? Eu mesma deixei de consumir inúmeros produtos, nem por questão de reduzir açúcar nem nada, simplesmente por não conseguir ingerir algo com sabor tão doce. Para mim esse “comum” já deixou de ser “normal” faz tempo!!

  2. Bianca disse:

    Por mais que a legislação permita o ‘e/ou’, seu uso dificulta identificar o que está sendo consumido. E isso deve ser avaliado junto a consumidores no processo de P&D.
    Quanto ao ‘sem glúten’, realmente me preocupo com o aumento da oferta de produtos com esse apelo. Principalmente porque a comunicação é muito mais voltada para aqueles que não tem restrições, mas optaram por consumir produtos “mais saudáveis” (colocando o glúten como vilão), do que para celíacos. Não sei se esse esforço todo também reflete em garantir que não haja risco de contaminação cruzada durante a produção.

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