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A POLÊMICA DA RITA LOBO E A (FALTA DE) EMPATIA NA ALIMENTAÇÃO

Esta semana começou com uma nova polêmica: a editora do Panelinha e apresentadora do programa Cozinha Prática, Rita Lobo, entrou numa discussão via Twitter com uma seguidora que lhe perguntou por que não ensinar uma receita de maionese substituindo óleo e ovo. Rita se irritou – como diz a mídia tradicional – e entrou na versão “contra-ataque”. Além de pedir à seguidora para “tratar seu distúrbio”, comenta que sente pena de quem troca “a farinha por fécula e a manteiga por óleo de coco p (sic) deixar o bolo mais saudável.”

Logo a internet se dividiu entre os pró- e contra-Rita, num embate que só o anonimato pode justificar. A polêmica já migrou para o mundo físico – ontem mesmo, numa reunião com técnicos de alimentos, era um dos assuntos do dia. Ponto para a Rita pelos seus 189 mil seguidores no Twitter, 214 mil no Facebook e 572 mil no Instagram.

A maior parte da rede parece apoiá-la, e o que deu o tom pode ter sido um gatilho bem famoso nos últimos tempos. Lá pelas tantas, agradecendo o apoio de um dos seus seguidores, Rita coloca, do alto da sua experiência, “Tô muito velha pra modismo. São 17 anos dirigindo o @Panelinha. Mais de 20 trabalhando com alimentação. Pensa o tanto de mimimi que já vi”

Mimimi é o gatilho mais poderoso que se pode ter hoje numa discussão entre os representantes do “antes que era bom” com os “o mundo precisa mudar”. Jogue mimimi numa conversa e veja o que acontece. Os primeiros tentam invalidar os argumentos dos segundos. Os segundos, reviram os olhos.

Sou uma grande adepta da alimentação estilo Rita Lobo – cozinhando quase todas as minhas refeições, usando ingredientes variados, comendo minha porção de proibidos (bacon, queijos gordos, manteiga, bastante macarrão). Na nossa casa, entram processados, é claro – mas eles não são a base da nossa alimentação. Há espaço para todo o tipo de alimento, mas como cozinhar para mim é um ato de criatividade, temos preferência ao que podemos usar em receitas.

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Na nossa casa também não há restrições alimentares (além daquelas impostas pelo gosto natural de uma criança de 5 anos). Não sou de seguir receitas, mas assistia o programa da Rita Lobo com prazer, apenas para me deliciar com o foodporn e talvez pegar uma ideia ou outra. Parei de assistir quando ficamos 5 meses sem ver TV, e depois migramos para o Netflix.

Considerando tudo isso, eu deveria estar aqui me alinhando com a Rita. “O mundo está cheio de mimimi” e “as pessoas não sabem o que estão dizendo” parecem ser os motes da maioria dos técnicos de alimentos ao meu redor. Quem aí já não revirou os olhos quando um amigo disse que no leite UHT havia conservantes – ou que no frango haveria hormônios? Eu mesma, já o fiz dezenas de vezes.

Contudo, essa polêmica toda começou com uma pessoa em busca de inclusão. Que pedia à Rita uma ajuda na substituição da receita para que mais gente fosse incluída à mesa. E quando falamos sobre inclusão alimentar, logo nos lembramos da questão dos alérgicos, celíacos e intolerantes – que (a grosso modo) não gostaram nada da forma como a questão de substituição foi tratada pela apresentadora. Chamar uma alergia de um “distúrbio” que pode ser tratado é inconsequente, quando não perigoso e ofensivo.

A Rita estava ciente da questão alergia? Parece que sim: uma seguidora tentou mostrar isso (mal sabia Rita, pelo jeito, que tal seguidora era uma das organizadoras da campanha Põe no Rótulo), mas a apresentadora continuou seguindo o caminho “pare de me amolar com o seu mimimi”. Cada um com suas bandeiras, mas me parece que faltou uma colher de sopa de empatia nessa receita.

Comida é cultura. Os maiores embates acontecem quando alguém apresenta uma receita tradicional de uma forma diferente – tiramisu sem mascarpone, molho madeira sem vinho madeira, churrasco temperado com especiarias. O que eu como, e a forma com que eu preparo esta comida, refletem um monte de crenças pessoais e culturais que me circundam (além das minhas restrições alimentares). Eu entendo muito bem a vertente da alimentação que procura voltar às origens de como se preparam os alimentos.

Se você levantar a cabeça fora d’água nesta discussão, perceberá que vivemos num país normativo. Há uma boa parcela da população que torce o nariz para qualquer proposta alternativa à cultura dominante. Pense em ser ateu num país cristão. Pense em ser comunista num país patrimonialista. Pense em ser homossexual em um país “hétero”. O Brasil é um país normativo, que pretende alinhar a todos num mesmo trilho. Já falei sobre esse conservadorismo antes, e seus reflexos sobre nossos esforços de inovação.

Quando a Rita Lobo desconsidera as adaptações em receitas tradicionais da nossa cultura, chamando-as de “modismo”, ela alimenta essa besta-fera. Ela não está errada em dizer que a receita tradicional de maionese leva, de fato, ovo e óleo. Contudo, o que cada um come é reflexo das suas crenças pessoais e culturais, e de suas restrições alimentares – portanto cabe à esfera das liberdades pessoais.

É óbvio que ser vegano é uma escolha pessoal, assim como respeitar a dieta kosher, halal, vegetariana, flexitariana, frutariana ou qualquer outra que não envolva risco à saúde (e há controvérsias em relação a este ponto). A pessoa pode tanto seguir, como deixar de seguir, estas dietas no dia seguinte. Ela tem escolha em relação a isso.

O que não é o caso dos alérgicos, celíacos e intolerantes. Não há escolha aqui.

Nos dois casos, contudo, eu fico a me perguntar: quem tem o direito de interferir, minimizar, ferir ou ridicularizar as escolhas do outro? Não gostamos todos de ser respeitados nas nossas escolhas? Caso mudemos de religião, não gostaríamos que nossos amigos e parentes nos respeitassem e até apoiassem nesta mudança? Caso deixemos para trás uma carreira corporativa em busca de um sonho de empreendedorismo, não esperaríamos apoio e compreensão?

O que pensariam os novos empreendedores, criados pela crise de 2015, se um formador de opinião do mundo dos negócios passasse a dizer que o empreendedorismo é uma “modinha”?

Esta é a discussão que eu gostaria de ver aqui entre os visionários: o que pensamos (e falamos) quando nosso usuário está mudando a sua alimentação? Quando nos deparamos com grupos que desafiam os alimentos tradicionalmente consumidos na nossa cultura? O que fazemos, como profissionais, quando há uma nova moda alimentar: torcemos o nariz ou entendemos como ela reflete a mudança cultural pela qual estamos passando?

As empresas usam o “conservador mercado brasileiro” como desculpa para não se arriscar na inovação de alimentos. Mas quando torcemos o nariz para veganos, quando menosprezamos os que substituem carnes nas suas refeições, não estamos contribuindo para aprofundar ainda mais essa aversão ao novo? Não estamos reforçando o problema de que estávamos reclamando há dois minutos atrás?

Se você trabalha com inovação e desenvolvimento de produtos, destorça o nariz. Pare de criticar e procure entender. Estenda o braço, mergulhe na nova onda, entenda até onde ela vai, a que rios e mares lhe leva. Há muito tempo atrás as pessoas começaram a querer comer fibras – e hoje a gôndola de pães é quase que única e exclusivamente composta por pães integrais. Há um tempo atrás as pessoas começaram a ter pets dentro de casa – e hoje aumentam o vegetarianismo e o veganismo (até aparecem nas tendências de 2017!).

Onde estaremos em 20 anos? Se você é um visionário, tem que perceber esses movimentos quando o mundo ainda está torcendo o nariz para eles.

No fundo, é uma questão de respeito. Pode ser moda ou não. Pode ser científico ou não. Pode ser relacionado à saúde ou não. Em qualquer um dos casos, o que deve prevalecer é a empatia e o respeito.  A Rita Lobo é obrigada a apresentar comida para veganos, vegetarianos, celíacos, alérgicos e todas as demais dietas que existem?

Não.

Mas ela (assim como nós, visionários de alimentos) tem que respeitar todas elas.

(E pare de usar a palavra mimimi. Se você usa mimimi, ganha imediatamente o selo “eu não tenho empatia e não quero aprender nada novo”)

Sobre Cristina Leonhardt

Eu quero que você alcance todo o potencial de inovação que existe dentro da sua empresa de alimentos. Se conseguirmos criar um produto diferenciado, não teremos mais consumidores. Teremos uma legião de fãs. Quer me conhecer melhor - pode me adicionar no Linkedin: www.linkedin.com/in/cristina-leonhardt/
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6 Comments

  1. Nesse caso, a mãe dessa criança deve procurar um nutricionista para ser orientada, pois se for intolerância à lactose, ela tb não pode dar iogurte, mesmo o de soja, que pode dar reação cruzada. Tb se for a ovo, fica difícil reproduzir o sabor e a consistência desejados. Enfim, esse tipo de receita é muito específico para ser abordado por uma chef.

    • Sra Inovadeira

      Olá, Juju! Chefs fazem substituições todos os dias – criando novas receitas com base em receitas tradicionais. Está na raiz da criatividade testar o novo! 😉 Eu quero crer que há um mundo bem mais inclusivo e menos intolerante à nossa frente.
      Obrigada por comentar!

  2. Aqui na minha casa nos alimentamos igualmente a você Cristina, tirando a criança de 5 anos que ainda não temos! Essa coisa de inclusão é bem polemica e confesso que me cansa…é tão mais fácil respeitar as diversidades e pronto! Mas enfim…nada é tão simples assim! Mas acredito que o que Rita quis dizer (concordo que poderia ser mais sutil), é que exitem programas dessa vertente que substituiem produtos por outros, no mesmo canal que a Rita. O dela não tem esse perfil, e ela precisa defender o trabalho dela, afinal, se todos os programas se transformarem em programas para pessoas com restrição alimentar, tudo será igual, e onde fica a diversidade mesmo?! Acredito que na área de alimentos é a mesma história!Empresas que querem ganhar mais e mais mercados distintos criam suas marcas e suas linhas para cada distinção, e ainda bem! Por que particularmente não sei o que seria de mim se todas as Coca-colas fossem de alguma linha sem açúcar! 🙂

  3. Foi o melhor texto que li sobre essa polêmica e desastrosa (ao meu ver) declaração da Rita. Grata por escrevê-lo.
    Rita realmente não é obrigada a fazer modificações em suas receitas, mas achei totalmente violenta a maneira como ela taxou de distúrbio alimentar a escolha por inovações alimentares. Li que ela considera comida o oposto de medicação e que comida é essencialmente bom e medicação essencialmente ruim (no sabor), no que eu discordo totalmente, vejo a comida como medicação preventiva, no entanto, ela não precisa e não deve ser ruim. Sinto muito prazer comendo, adoro inovações, descobrir novos sabores e novas maneiras de ressignificar o tradicional. Tenho distúrbio? rs.

  4. Olá Cristina, muito boa suas colocações e pensamentos. Gostaria de ser seu contato no Linkedin mas não consegui, pois você é 3.o Grau em minha rede. Abraços, me adicione por gentileza.

    https://www.linkedin.com/in/consultordenegocios/

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