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VOCÊ COME OS ALIMENTOS QUE DESENVOLVE?

Esses dias, meu sócio deu um curso para duas turmas de fiscais agropecuários e lançou a pergunta: vocês comem os alimentos dos locais que inspecionam? Em um dos grupos, a resposta unânime foi sim.

Já no outro… houve certa reticência em responder.

Ele havia lançado a pergunta justamente para instigar – mas de qualquer forma, ficou bastante surpreso com a resposta. Como uma empresa pode ser boa o suficiente para passar em uma inspeção sanitária, porém o alimento que ali é produzido não atende ao padrão de qualidade de consumo do próprio inspetor? É um paradoxo interessante: a exigência para os outros é mais baixa do que para mim mesmo.

Quando discutimos o assunto entre nós, ficamos nos perguntando como a colaboração dos fiscais estava permitindo que produtos com menor qualidade chegassem ao mercado.

E eu até entendo o motivo.

Há toda uma pressão social para que pequenos produtores escapem da “burocracia” e das “altas exigências” da Anvisa e do Mapa. Esses dias mesmo aconteceu aqui na minha cidade: a VISA local impediu que os feirantes vendessem alimentos processados sem rótulo.

Mandioca sem casca, pão de milho, geleias, waffle: a oferta não é pouca por aqui. Eu – amante de comida de rua e superapoiadora da inovação e diferenciação – acho o máximo. Eu – profissional de segurança de alimentos – não acho tão bacana assim.

Ponderando, acabo pendendo para quem anda dentro da linha. Tendo que escolher entre ter 1000 produtos expostos na feira de qualquer jeito, ou apenas 200 dentro da linha, prefiro a segunda opção.

É uma questão de respeito ao usuário, no final das contas. Se eu de fato me preocupo com ele, se o respeito, essa preocupação e respeito são expressados de diversas formas. Eu me preocupo com a receita, com a embalagem, com o rótulo, com o atendimento, com as boas práticas, com o atendimento lá na feira.

Contudo, nesse grupo de pequenos produtores, parece que há uma certa bandeira levantada ao ar: “somos melhores porque somos pequenos”. Ser pequeno parece colocar um manto de invisibilidade de problemas sobre a empresa.

Problema? Que problema?

É como se eles não existissem. E, como qualquer pessoa que já foi visitar seus fornecedores, esse não é sempre o caso.

Veja só: é o grande debate do empreendedorismo. A partir de que ponto a start-up deve ser colocada no balaio das demais empresas? Ela precisa de proteção no início para florescer – mas isso significa que ela não tenha que cumprir a lei?

Start-ups e pequenas empresas vivem fortemente o paradigma do produto. Enquanto ainda são administradas pelos fundadores, e estes estão com a mão na massa, dificilmente vemos estas empresas mudando a formulação dos seus produtos. Enquanto ainda são pequenas, atuam no corpo a corpo com o usuário e não caíram no radar do grande mercado, há pouca pressão para redução de custo.

É só você pensar sobre a última vez que foi até um pequeno produtor para comprar massa fresca, mel, queijo, salame, pão: duvido que você tenha comparado preço. Não existia gôndola. Não existia produto concorrente com o qual comparar. Você simplesmente comprou – e, se gostou, comprou novamente e ainda espalhou a palavra.

É o produto que importa. E ele tem que ser o melhor possível. Start-ups e pequenas empresas vivem o Paradigma do Produto.

(Aí você já começa a ter a pista para entender a falta de confiança global em grandes empresas de alimentos. Não, não é só no Brasil, visionários.)

Grandes empresas atuam no paradigma oposto. Como colocou Barry Calpino durante o Food Innovate Summit, o que é importante para elas é a qualidade do produto – e isso ficou evidente pelo tamanho da plateia no Food Innovate, quando comparado com o evento ao lado, de Qualidade, Food Sure.

Acontece que grandes empresas entendem qualidade de outra forma.

É uma qualidade impregnada pela ISO 9001: atendimento padronizado dos requisitos do usuário. Entregar mil vezes o produto, mil vezes da mesma forma, sem erros. Somado a um conceito bem abrangente de melhoria contínua, que permite chamar uma redução de custo de melhoria, porque “agregou mais valor” ao produto.

Nem sempre dá certo…

(Agregar valor é um daqueles termos odiosos que podem muito bem ir parar no Cemitério dos Jargões Corporativos. Como, ao longo do tempo, ele foi sendo transformado de “ofertar produtos mais bacanas ao usuário” para “reduzir os custos dos produtos que já ofertamos”, é mais sincero hoje em dia apenas dizer “reduzir custos”. Porque é o que “agregar valor” realmente significa por estas bandas.)

Grandes empresas vivem o Paradigma do Processo. Há uma atenção, proporcional ao seu tamanho, para que todos os processos fluam corretamente. Para que não haja erro. Para que a legislação seja atendida, para que os rótulos corretamente descritos, para que ninguém morra comendo o produto.

Grandes empresas entendem qualidade como segurança no processo. Pequenas empresas entendem qualidade como excelência no produto.

(E ninguém se entende, como vocês podem perceber.

O usuário grita nas redes sociais “este produto é uma porcaria!”, ao que a grande empresa responde “nossos produtos são produzidos segundo os mais criteriosos processos, com atenção à qualidade do produto bla-bla-bla”.  

Um fala de Produto. Outro, de Processo.)

Seja de que lado da cadeia você está, visionário, uma coisa é certa. Se você acompanha este site, e faz parte da rede de visionários de alimentos, você tem um papel importantíssimo nessa cadeia.

Sim, você.

Uma coisa bem importante que tenho aprendido nos últimos tempos é que não existem empresas.

Não existe um ser alheio, pairando no ar, escolhendo as cadeiras do escritório e decidindo sobre a temperatura do ar condicionado. Não existe um ser alheio, levitando, assoprando no ouvido de cada líder o que ele deve dizer à sua equipe. Não existe um ser alheio chamado empresa.

Empresa não escolhe, não decide, não diz. Empresa não existe, por mais que nos digam “são regras da empresa” ou “são valores da empresa”.

As regras e os valores são sempre das pessoas. Pessoas que estão ou que estiveram lá, mas pessoas. Sempre.

E você, caro visionário, estimadíssima visionária, é uma dessas pessoas. Não venha me dizer que você “só faz o que a empresa pede”. Esteja você no paradigma de Produto ou de Processo, você é uma das pessoas que toma decisões por aí.

E, considerando que você está lendo este texto aqui, numa plataforma que fala de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação de alimentos, você é uma das pessoas que toma decisões importantíssimas aí.

Você decide receitas, percentuais, ingredientes. Está na sua mão com que fornecedores trabalhar. Que testes fazer. Que protótipos apresentar. Que produtos aprovar.

Você é quem aprova a rotulagem. Você treina as equipes de Produção. Você treina a Qualidade. Você monta a especificação de produto acabado, determina as faixas de liberação.

Você diz o que é certo. Você também diz o que é errado.

Like a boss 😉

Além de tudo isso, se você vive o Paradigma do Produto, é você quem cria o rótulo. É você quem implanta as Boas Práticas de Fabricação. É você quem analisa perigos. É você quem para a fábrica quando detecta uma falha grave. É você quem traz para este processo a segurança que ele precisa.

Por outro lado, se você vive o Paradigma do Processo, é você quem transforma briefing em produto. É você quem batalha por uma receita. Você é quem decide entre 20 ou 2 ingredientes. Você é quem determina o tamanho da lista de ingredientes. É você quem decide onde reduzir custos. É você quem traz para este produto a excelência que ele merece.

Então, considerando a sua posição, tudo o que está nas suas mãos, o quanto você é uma peça fundamental nesta cadeia, eu fiquei aqui pensando.

E se hoje eu estivesse dando um curso de Inovação de Alimentos, e você estivesse na plateia, e a pergunta começasse a se formar na minha cabeça, e depois ela fosse articulada pela minha boca, e recebida pelos seus ouvidos e então ela fosse processada na sua cabeça: o que você responderia?

 

Você come os alimentos que desenvolve?

 

 


 

Ps.: Sim, há grandes empresas que vivem o Paradigma do Produto. E pequenas empresas que vivem o Paradigma do Processo.

O desafio do dia é vocês me darem exemplos destas aí nos comentários 😛

 


 

Os textos mais provocativos eu não publico aqui no site – eles são reservados para os visionários que assinam a nossa newsletter.

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Se você gosta de reflexões sobre o papel do visionário nas empresas de alimentos , talvez goste de continuar a leitura:

 

Sobre Cristina Leonhardt

Eu quero que você alcance todo o potencial de inovação que existe dentro da sua empresa de alimentos. Se conseguirmos criar um produto diferenciado, não teremos mais consumidores. Teremos uma legião de fãs. Quer me conhecer melhor - pode me adicionar no Linkedin: www.linkedin.com/in/cristina-leonhardt/
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