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“AQUI O CONSUMIDOR FIEL É TRATADO COM RESPEITO”: ENTREVISTA COM PAULA MARANHÃO, GERENTE DE P&D NA AUSTRÁLIA

Já pensou em buscar uma carreira internacional? Pois foi o que a engenheira de alimentos Paula Maranhão fez. Hoje são 13 anos fora do Brasil, o que lhe dá uma visão muito clara do mercado neozelandês e australiano, quando falamos de P&D de alimentos. Tivemos a oportunidade de entrevistá-la e falar um pouco sobre carreira, imigração, relação universidade-indústria e a questão de identidade dos produtos alimentícios. 

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A Paula tem Mestrado em Engenharia pela Universidade de Auckland  e hoje é Gerente de P&D da Quick Service Restaurant Holdings na Austrália. Lá no início da vida acadêmica, fui sua colega de Engenharia de Alimentos na UFRGS 😉

Esta é uma excelente oportunidade para avaliarmos o quanto a cultura local permeia as decisões de desenvolvimento de produtos que tomamos na nossa rotina. Quer saber como é fazer desenvolvimento de produtos lá do outro lado do mundo?

Vamos à entrevista!

1) Começando do começo: por que imigrar para a Austrália?

Tudo começou a partir da minha primeira experiência profissional.

Eu tive a sorte de ser contratada pela empresa onde eu fiz o meu estágio de conclusão de curso. A empresa, na época, estava expandindo em desenvolvimento de produtos para indústria. Eu adorei a experiência de trabalhar na indústria de alimentos, e especialmente produtos novos, mas sentia que a realidade da indústria no Brasil era muito difícil. Uma série de aspectos compunham essa minha opinião.

  • Na minha cabeça, eram inaceitáveis os salários oferecidos para engenheiros de alimentos e para os funcionários do chão de fábrica.
  • Por causa de pedidos de última hora, às vezes no final da jornada do dia, eu tinha que “pedir” aos funcionários do chão de fábrica para ficarem trabalhando a noite toda, para completar o pedido.
  • Como responsável técnica, eu fui requisitada a assinar amostras adulteradas para órgãos do governo.

Uma combinação das condições de trabalho e a carga horária, em geral de 60 horas semanais, me fizeram buscar algo alternativo.

Decidi que não queria mais trabalhar para a indústria no Brasil. Então resolvi tentar sair do país para fazer pesquisa acadêmica e talvez voltar para dar aula na universidade. Mas ao mesmo tempo tentei escolher um país que eu talvez pudesse imigrar se gostasse. No mundo pós 9/11, senti que as fronteiras de diversos países estavam superfechadas, então a Nova Zelândia surgiu como a melhor opção para minha empreitada. Sai do Brasil em fevereiro de 2004.

Países como a Austrália e Nova Zelândia aceitam imigrantes de certas profissões para completar espaço no mercado de trabalho. No caso da Austrália, essa lista é muito mais restrita do que na Nova Zelândia. A minha opção pela Nova Zelândia foi primordialmente porque Engenheiros de Alimentos com experiência de indústria estavam listados como potenciais imigrantes. Depois alguns anos como residente permanente, me tornei cidadã da Nova Zelândia. Um acordo entre os dois países permite que se trabalhe na Austrália. Então decidi fazer a mudança e comecei a procurar empregos na Austrália.

Depois de quase 9 anos na Nova Zelândia, resolvi imigrar para a Austrália, o que fiz quando consegui uma oferta de emprego para trabalhar na Bega Cheese.

2) Como Gerente de P&D de uma grande cadeia de restaurantes, o que mais lhe desafia atualmente?

Como em qualquer companhia que eu já trabalhei, o desafio é sempre encontrar produtos que sejam sucesso de mercado e inovação. Acho que a pressão em países de população menor é maior, pois a escala de tudo é menor, então cada produto tem que ser um sucesso absoluto para durar no mercado.

Então acho que o maior desafio é ter uma estratégia de marketing alinhada com o mercado.

3) Há iniciativas da Nova Zelândia e Austrália, na área de segurança de alimentos, que impactam o mundo inteiro – como exemplo, o sistema Vital do Allergen Bureau. Você vê este mesmo nível de protagonismo quando se fala em desenvolvimento de novos produtos e tecnologias?

Não. Acho que os dois países são muito bons na área de segurança, mas o mercado de alimentos é bem conservador. Eu sempre considero que aqui o que funciona é algo que parece inovação mas tem alguma relação com um produto estabelecido no mercado. Sinto que as pessoas precisam ter uma certa referência antes de experimentar algo novo. Muitas vezes o que se considera “inovação” é uma variação pequena de algo existente, ou cópia de algo que está no mercado britânico ou americano.

Por outro lado, trabalhando aqui tecnicamente na indústria, tenho uma segurança que nunca senti no Brasil.

Aqui, muito frequentemente, se algo der errado, mas se você provar que fez o melhor possível, baseado no seu conhecimento naquele momento, é aceito como uma metodologia profissionalmente reconhecida e uma justificativa razoável para o erro.

Acho que uma diferença grande é que os sistemas de segurança são muito estabelecidos e as pessoas culturalmente têm um hábito mais comum de seguir regras (que acho uma barreira cultural do Brasil). Isso me permite fazer o meu trabalho com a consciência tranquila.

4) A pergunta inevitável: como você enxerga o mercado de alimentos brasileiro quando compara com o que existe na Austrália?

Sinceramente, não acompanho muito o mercado brasileiro e estou fora do país há quase 13 anos. Mas se eu posso falar da minha impressão na transição, o mercado brasileiro segue muito o estilo americano, com muitos aditivos e existe uma distinção entre alimentos industrializados e frescos. Para mim existe quase que uma expectativa que algo industrializado não tenha que ser tão bom quanto algo fresco.

Sinto que, na Austrália e Nova Zelândia, se espera que a indústria desenvolva produtos tão bons quanto algo que o consumidor faria em sua casa, sem aditivos, ou que pelo menos não pareçam ter aditivos, apresentando uma oferta próxima ao produto natural.

Eu me lembro, desde a minha infância no Brasil, que a formulação de produtos carro-chefe é progressivamente mudada em busca do menor preço (concordo 100%! e os os visionários sabem que podem cortar custos em outros lugares, não é?).

Um consumidor atento pode acompanhar a decadência da qualidade de produtos industrializados, ano após ano. Acho isso chocante de tão óbvio.

Alguns exemplos recentes que posso citar ilustrando esse meu (pre)conceito seguem abaixo:

  • queijo catupiry versus recheio tipo catupiry: não me lembro de comer nenhum produto razoavelmente parecido com queijo nas minhas últimas visitas ao Brasil
  • suco de caju: pedi pra familiares me trazerem suco de caju concentrado, pois eu adoro. Fiquei tão decepcionada, pois o produto hoje é extremamente diluído e possui aroma. O resultado é um produto para mim falso e decepcionante para o consumidor, que antigamente consumia um produto de alta qualidade.

Aqui, o consumidor fiel é tratado com respeito. Produtos carro-chefe são às vezes produzidos por décadas, e às vezes mais de cem anos, desde a Inglaterra ou localmente, sem mudanças marcantes na formulação, ou no produto final.

5) Como é formada a sua equipe de P&D? Qual o número de projetos que vocês costumam conduzir por ano?

A minha equipe possui duas pessoas experientes e duas recém-formadas. Como cuidamos de três redes de restaurantes e temos novas campanhas a cada 8 a 12 semanas, estamos sempre lançando algo novo. Estimo que lidamos com aproximadamente 80 a 100 projetos por ano

6) Você acredita que ser brasileira lhe traz alguma competência especial no mercado profissional australiano?

Primeiramente, acho que os cursos de engenharia de alimentos no Brasil são muito abrangentes.

Sempre achei que o meu curso foi muito longo, mas ao longo da minha carreira em várias indústrias de alimentos, sempre senti que a minha formação foi excelente.

Aqui não existe Engenharia de Alimentos. Na Nova Zelândia existe só uma universidade que tem algo parecido, que é a Massey University. A Universidade de Otago tem um departamento forte de Food Sciences, mas não é próximo de engenharia.

Outras universidades oferecem engenharia química, e o foco em alimentos varia muito, com algumas universidades não oferecendo nada em alimentos, enquanto outras são bem especificas. Eu notei isso quando gerenciei projetos com formandos nas áreas de engenharia. A Bega Cheese tem um convênio com universidades e todos os anos traz grupos de estudantes para um projeto de 3 meses. Por outro lado, o nível dos estudantes que chegavam ao nosso programa sempre foi altíssimo e os projetos eram sempre muito bons.

A faculdade onde fiz mestrado, University of Auckland, tem um convênio forte com a indústria leiteira. Eu me inscrevi no curso por indicação de uma amiga engenheira de alimentos e não me arrependi. Fiz meu mestrado com um projeto pra Fonterra, que na época era a maior empresa de laticínios do mundo, que tinha o potencial de economizar energia para indústria. Durante meu experimento, em processamento de leite em pó, descobri que amostras reconstituídas não seriam adequadas para minha análise de viscosidade, então consegui amostras frescas da linha de produção. Isso não seria possível sem a relação com a indústria.

Por outro lado, vi cursos de nível técnico ensinando operações unitárias, em que os estudantes não tinham a base de um curso de engenharia. Acho que o resultado é bastante mecânico, com muito pouco benefício ao estudante.

Por um lado, a gente traz uma formação que eu considero completa, mas acho que vir de um país onde as coisas não são tão organizadas nos faz desenvolver uma flexibilidade valiosa para o profissional.

 

7) A questão do início do desenvolvimento: como funciona a geração de ideias pelas empresas que você passou? Existem movimentos de inclusão do usuário?

Todas as empresas onde trabalhei que tinham um departamento de marketing forte tinham inclusão do usuário. Nelas, o processo de desenvolvimento normalmente segue o caminho abaixo;

  • brainstorming, gerando ideias
  • identificação das ideias viáveis, que algumas vezes inclui pesquisa de mercado dos conceitos
  • desenvolvimento de protótipos
  • pesquisa de mercado com avaliação do produto
  • implementação dos itens que desempenharam melhor, às vezes mantendo alguns pra extensão da linha no futuro

A inclusão do consumidor depende da verba de cada projeto e da sua importância, já que a pesquisa de mercado custa bastante.

8) Como vocês lidam nos restaurantes com a tendência de alimentos saudáveis?

Na minha empresa nos temos três cadeias e tentamos ter o posicionamento de cada uma bem definido.

 

  • Chicken Treat: 60 lojas, somente no oeste da Austrália, WA. O que interessa é prazer, algo pra ocasiões quando o consumidor quer matar a vontade de algo delicioso.
  • Oporto: uma cadeia de 152 lanchonetes criadas por um português aqui de Sydney. Nos últimos anos, tem se focado na volta às raízes da origem portuguesa. Vende frango grelhado, mas também um hamburguer de frango com o famoso (aqui) molho de pimenta d’Oporto. Vários itens do cardápio são frescos e de processamento reduzido, lembra mais comida de verdade e algo que se prepararia em casa.
  • Red Rooster: cadeia de 360 lojas em todo pais, famoso pelo frango assado. Marca bem mais tradicional. Frango assado é acompanhado de vários itens fritos no cardápio, mas também salada coleslaw e purê de batatas, além de sanduíches. Eu sempre falo que se alguém quiser comer uma refeição balanceada do Red Rooster, é possível. O problema é que o mais comum aqui é comer o frango acompanhado de fritas. Então a percepção é que Red Rooster vende fast-food, mas estamos focando as campanhas em algo mais família, que não tem que abrir mão da refeição balanceada pra comer algo gostoso.
Todas as nossas marcas vendem fritas como acompanhamento e é o que mais vende junto com todas as opções de frango, assado, grelhado ou frito.
Outro exemplo é Oporto que tem várias saladas ótimas, mas o que vende mesmo é fritas com o frango e o Bondi burger, carro chefe da cadeia, que também normalmente é acompanhado de fritas (herança britânica a presença de fritas por todo lado).

E a própria Paula conta um pouco da sua história profissional, porque eu sei que você ficou curioso 😉

 

Comecei a carreira na Mu-Mu, onde completei o meu estágio obrigatório do curso de engenharia de alimentos.

Meu segundo emprego na indústria foi na Cadbury Confectionery NZ, em Dunedin na Ilha Sul, onde eu desenvolvia produtos de chocolate como bombons e barras de chocolate. De lá, me transferi para a fábrica de Auckland, na Ilha Norte, onde eu fazia desenvolvimento de embalagens e otimização de processos.

No meu emprego na Hansells Foods, era responsável por formulação e implementação de produtos na maioria para marcas próprias de supermercado. O interessante da Hansells era a variedade de produtos que eu trabalhava. Tive que aprender a entender de temperos, já que fazia molhos e chutneys, coberturas doces, geleias, dressings para saladas, bebidas concentradas e prontas para consumo e nós produzíamos isotônicos pra Coca-Cola.

Eu era responsável pelos cordials da marca da Hansells, a Baker Halls, que foi vendida pra Coca-Cola depois do sucesso do lançamento de vários sabores mais modernos para a marca.

Durante o meu período na Hansells, fiz o meu mestrado em otimização de processo de produção de leite em pó. O meu grupo de pesquisa tem uma relação forte com a Fonterra, e fiz o meu projeto com amostras colhidas especialmente da fábrica, quando as pesquisas similares, até aquele momento, só usavam amostras reconstituídas de leite em pó. A reconstituição compromete muito a coerência dos resultados e me sinto afortunada de ter tido oportunidade de fazer um experimento relevante.

O meu emprego na Integro Foods era mais de gerência de projetos de desenvolvimento, uma mudança que eu quis fazer naquele momento e consegui. A empresa fazia margarinas e óleos para consumidor e indústria. Eu era responsável pelo suporte técnico a uma série de clientes industriais e tinha como cliente a Goodman Fielder, uma das maiores indústrias da Austrália.

O meu emprego na Bega Cheese era de gerenciamento do time de desenvolvimento e nós lidávamos com uma série de clientes na Austrália e em mais de 40 países, o que era complexo, já que tínhamos que considerar as regulamentações de cada país importador.

No momento, trabalho para a QSR, que é dona de três cadeias de restaurantes, entre elas a Red Rooster, com mais de 360 lojas, e Oporto com mais de 140 lojas na Australia.

Nós normalmente lançamos campanhas a cada 6 a 12 semanas cada em cada marca, e estamos sempre lançando pratos e sobremesas novas. Lidamos com uma serie de fornecedores e normalmente buscamos opções prontas para implantação nos restaurantes, mas frequentemente desenvolvemos sabores novos e até desenvolvemos produtos do início ao fim com os fornecedores.

E vocês, visionários? Já pensaram em seguir carreira no exterior? O que lhes atrai nesta ideia? O que lhes impede de ir?

 

Já viu as demais entrevistas realizadas aqui no site? Já falamos com Gerentes de P&D, empreendedores, pesquisadores de design thinking e etnografia, agentes promotores da inovação, entre outros. Se você quer ter um benchmark das melhores práticas para Inovação de Produtos, fique por aqui!

Sobre Cristina Leonhardt

Eu quero que você alcance todo o potencial de inovação que existe dentro da sua empresa de alimentos. Se conseguirmos criar um produto diferenciado, não teremos mais consumidores. Teremos uma legião de fãs. Quer me conhecer melhor - pode me adicionar no Linkedin: www.linkedin.com/in/cristina-leonhardt/
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